Tuesday, February 28, 2006

O clube dos emparelhados

A alteração do nosso estatuto social não passa simplesmente pelo investimento na nossa erudição. Pode-se ler a rodos, ir a concertos de Shostakovich; ouvir-se Shubert, Kronos Quartet ou Philip Glass pela manhã… Pode até deambular-se pelas galerias e museus da cidade, ser assídua das ultimas exposições ou habitué de teatros nacionais e alternativos. Enquanto somos ‘solteiras’, soltas e frescas, este capital cultural de nada nos serve. Ninguém nos quer a recitar grandes poetas, ou a desfiar sobre a situação política no Sudão. Tão pouco há quem se interesse pela nossa opinião política sobre o apoio da União Europeia ao actual governo Palestiniano. Enfim, a vidinha social terá de ser toda organizada por nós, porque convites não choverão, por mais interessantes que sejamos. Refugiamo-nos no grupo de amigas(os) que, curiosamente, continuam soltas(os) e frescas(os). Chega à quinta e ligamos umas(uns) para as(os) outras(os) perguntando ‘então?’. ‘Então’ é palavra código. Significa: ‘então que fazemos hoje, este final de semana?’; ‘então já pensaste em algo para fazermos?’; ‘então, sempre vamos sair, como de costume?’. Raramente alguém nos diz, ‘ah, não, olha, esta quinta o X e a Y convidaram-me para ir lá casa jantar depois da exposição da Frida’. É que o X e a Y gravitam num outro mundo, fazem parte de um outro clube: o clube dos emparelhados. Este é assim como que um clube num estádio superior. Algo que transcende os comuns ‘solteiros’ mortais. É, por assim dizer, uma maçonaria com regras bem definidas, cujos membros reservam o monopólio sobre o direito de admissão. Normalmente só integra o clube quem emparelhar. Isto porque neste clube sofrem quase todos de uma estranha fobia: a dos números impares. Um jantar com nove não pode ser: há que ter ou seis ou oito. A haver excepções, estas abrem-se quando a culpa pesa, ou quando o casal emparelhado em questão acha que necessita de diversão. Tipo, ‘oh X, e se convidássemos a G para jantar. Ela até e divertida. Hoje não me apetece ir ao bar do costume ter com a malta dos emparelhados’. E lá vai a G, preparada para ouvir 500 vezes: ‘então, ainda não tens namorado? Então e aquele? O do dente partido à frente? Olha que agora com essa idade não te podes dar ao luxo de desperdiçar recursos’. E é assim que somos encarados pelo clube dos emparelhados: como recursos desperdiçados ou ‘desperdiçadores’ e neste ultimo caso, merecedores da nossa triste condição! Mal sabem os emparelhados como esta é uma boa condição... As paixões de uma noite, uma semana, os ‘flings’, os esquemas para se encontrar este ou aquele, o não ter de acertar ponteiros para as férias, conhecer mais família ou herdar amigos de quem realmente não se gosta. Conselho para as emparelhadas saudosas: marquem encontros fortuitos com antigos admiradores, tonifiquem o ego! Como e bom ser-se solto e fresco!

Perplexa!

Autópsia ainda não determinou causa da morte de transexual
E' impressao minha ou o titulo desta noticia (no publico de hoje) e' horroroso?! Ate me da comichoes...

Monday, February 27, 2006

Misoginia em accao!

Cada vez tenho menos paciencia para as mulheres preocupadas com a identidade a escolher no processo de "matting". Isto como reaccao a um comment a este post (Scary Scarlett? Não, obrigado).

Honestamente nao consigo ser solidaria com a problematica ora somos inteligentes ora somos sexys. Give me a break!!!

Friday, February 24, 2006

Steve Bell, sempre no seu melhor

Wednesday, February 22, 2006

As exs dos actuais

Ele há exs de todos os tipos. Há as que desaparecem do mapa, que seguem em frente, que são capazes de reconstruir a sua vida social e emocional. Estas são as minhas preferidas. Encaixam-se na minha categoria de as ‘sãs’. Temos depois as perturbadas, aquelas que eu designo por ‘hormonais’, que ligam constantemente e a horas indecentes. As hormonais, ressabiadas que são, estão na ténue linha que separa o amor do ódio. Alias, o ódio é o instrumento que usam para lidarem com a sua própria incapacidade emocional e com o sentimento de rejeição. As ‘hormonais’ normalmente evoluem para um dos dois estádios: ou a certa altura desistem, ou transformam-se nas ‘amiguinhas’. As ‘amiguinhas’ são aquelas que conseguiram controlar o seu estádio ‘hormonal’ e depois de muita conversa com outras amigas chegam à conclusão que o melhor para se ‘reconquistar’ o ‘objecto’ perdido será optar pela versão da ‘amiguinha’. E óbvio que os ‘objectos’ têm culpas no cartório: a sua acção quase sempre determina em parte a reacção das exs.. O que eu gostava de saber é como é que as actuais deverão lidar com isto visto as actuais serem a terceira pessoa nestas complexas relações. Em qualquer um dos casos, as actuais herdam algo de um passado que não é seu e estão directamente envolvidas. Por exemplo, as ‘sãs’ são o sonho de qualquer actual. As ‘hormonais’, com as quais já tive de lidar, deverão ser ignoradas, ainda que telefonem às 4 da matina! Agora as ‘amiguinhas’... Ignora-se? Parte-se a cara ao gajo por lhe dar trela? Faz-se as trouxas? Fica-se e ganha-se uma úlcera?

Tuesday, February 21, 2006

Ha dias num laboratorio....

Just in case...a little bit of publicity!

Monday, February 20, 2006

Segunda, depois de Novembro

Por cada actor com quem valha a pena contracenar ha que , pelo menos, contracenar com dez mediocres!
Remeto-me as palavras dos que ja disseram quase tudo:
"Sorri porque aconteceu, nao chores porque acabou..."
GGM

Sexta, antes de sabado...

Faz-me o favor...
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
MÁRIO CESARINY

Friday, February 17, 2006

Feministas e violencia

Na quarta lá fui a um chamado ‘feminist reading group’, onde o livro ‘Women in Berlin’ era a obra em discussão. Foi precisamente por ser este o livro em discussão que me pediram para ir mediar a sessão. Parece-vos isto uma coisa completamente prosaica, um momento do meu dia de trabalho completamente normal. Pois esta coisa prosaica tomou proporções completamente absurdas... Em casa tive de ouvir ‘oh, então agora vais-te transformar numa feminista?! Eu não aguentaria viver com uma feminista!’. E o que e uma feminista, perguntei eu. Bom, feminista, e passo a citar, 'e uma mulher que usa os homens somente para ter sexo, e que tem como desejo secreto castrá-los a todos e transformá-los em caniches'. Confesso que ao ouvir tal argumento pensei imediatamente na faca do pão e que uma castração a mais ou a menos não teria muita importância... Mas lá tentei puxar de argumentos intelectuais para desconstruir uma percepção tão enviesada da realidade. Só que a coisa estava já num nível imparável. 'Feministas vêem em todos os homens um potencial violador'... Escusado será dizer que o que se seguiu a esta linha de pensamento conduziu a uma discussão não tão intelectual e não muito agradável.
Os homens não são todos potenciais violadores. Em contextos de conflito armado, e historicamente, a violação foi sempre usada pelos soldados (na sua grande maioria do sexo masculino) como um premio de vitória, ritual de humilhação do inimigo, ou - no caso de conflitos étnicos - como uma estratégia de reprodução étnica. O acto violência que se exerce sobre o outro e exercido estrategicamente. Ou seja, para uma mulher será mais complicado violar um homem. Daí que qualquer acto de violência que uma mulher exerça sobre um homem levara isso conta. Provavelmente, em contextos armados, as mulheres farão uso de outros métodos para exercerem violência sobre os homens. A violência e, deste modo, também sexualmente definida (i.e. gendered violence), bem como culturalmente. Isto e, o acto de violação cometido com o objectivo de humilhar o inimigo só produz o efeito de humilhação porque os companheiros das mulheres violadas sentem a sua 'propriedade' vilipendiada, invadida. Em Berlim de 1945, assim como na Servia dos anos 1990, os companheiros das mulheres violadas tacitamente impuseram o silencio colectivo. São paginas da historia transformadas em tabu devido a conotações culturais correntes em culturas patriarcais. As sociedades ocidentais, convencidas que são da sua sofisticação, não deixam de ser sociedades maioritariamente patriarcais. No DN de ontem vinha uma pequena noticia sobre a subida da violência domestica. Este e um dado estatístico que reflecte apenas uma maior sensibilização quer das forcas policiais, quer das mulheres sujeitas a este tipo de violência. Mas reflecte também uma sociedade dualista, que marcha a duas velocidades. A GNR não disponibilizou dados quanto a esta problemática e tendo em conta que a GNR opera sobretudo nos meios rurais, e de se especular que a realidade nos meios rurais não tenha sofrido grandes alteracoes. Violência domestica devera permanecer atrás de portas fechadas e quem não a pratica de quando em vez e um ‘caniche’...

Thursday, February 16, 2006

Mapa Mundi, pelos USA

Cliquem no mapa para uma melhor resolucao.

Wednesday, February 15, 2006

Mulheres em Berlin

Antes de me aventurar nos comboios ingleses (que contrariam qualquer mito sobre a ‘pontualidade britanica’…), para uma viagem de 5 horas (sem contar com os tradicionais atrasos), resolvi comprar um livro. E foi assim que descobri ‘Women in Berlim’. Estranhei o autor ser ‘anonimo’. Temi ter adquirido um daqueles romances a Danielle Steele... Mas 5 horas dentro de um comboio a diesel, sujo e deprimente... Danielle Steele would do! Contudo, eu não podia estar mais enganada. ‘Women in Berlin’ esta longe dos romances cor-de-rosa de Steele... E um livro cru, que nos faz entrar na mente e no corpo de Marta Hillers, a suposta autora. O livro e baseado no diário escrito por esta jornalista aquando a chegada a Berlim das tropas de Estaline. Marta, na altura com trinta e quatro anos, registra minuciosamente tudo aquilo que se passa a sua volta, tudo aquilo que se passa em si... Descreve-nos os bombardeamentos, a decadência e a demencia do ‘establishment’ nazi, o abandono a que os berlinenses foram votados, e as estratégias de sobrevivência dos habitantes de uma cidade que ainda não sabe bem se devera esperar rendição ou vitória. De uma forma totalmente despida de preconceitos, Marta relata as violações a que as mulheres foram sucessivamente sujeitas. A violação passou a ser encarada pelos soldados russos como o premio da vitória. O que impressiona neste relato e a forma pragmática como Marta, também ela violada, e as mulheres que a rodeiam, se recusam a ser vitimas. Em tal contexto, e como ser fisicamente inferior, Marta depressa conclui que será impossível evitar tal situação. Logo, Marta procura seduzir uma alta patente do exercito Russo: assim os soldados rasos não mais tentaram viola-la... E no meio de toda esta violência, Marta conta como os homens berlinenses se acobardam, como se fecham em casa deixando as mulheres a tarefa de ir buscar água e raccoes, indepedentemente do facto de poderem vir a ser violadas. Sobre estes, Marta escreve: ‘We feel sorry for them; they seem so miserable and powerless. The weaker sex. Deep down we women are experiencing a kind of collective disappointment’. Marta conta ainda como as mães procuram esconder as filhas adolescentes, oferecendo sem um grito o seu corpo aos soldados Russos por forma a desviarem as atenções... O governo Nazi, o partido Nacional Socialista, acusa Marta, e um governo/partido masculino que deixou para as mulheres o sofrimento da derrota, assim como certamente as teria excluido de uma possível celebração da vitória: ‘The Nazi world – ruled by men, glorifying the strong man – is beginning to crumble, and with it the myth of “Man”. That has transformed us, emboldened us. Among the many defeats at the end of this war is the defeat of the male sex’.
Publicado pela primeira vez na Alemanha nos anos 1950, este livro foi acusado de denegrir a imagem das mulheres alemãs. Desde então Marta Hillers pediu ao editor para não mais colocar o livro em circulação. Marta faleceu em 2001 e o livro voltou a ser editado na Alemanha em 2003. Esta minha viagem de 5 horas levou-me a Berlin, a mente de Hillers para quem aqueles eram ‘strange times. History experienced first hand, the stuff for tales yet untold and songs unsung. But seen up close, history is vexing – nothing but burdens and fears’.

Eu proponho um referendo sobre o aborto do genero feminino! (1)

O tempo por aqui tambem vai muito escasso, mas ja ha muito que estas ideias me bailam a mente e ignorando prosas perfeitas e rigores cientificos resolvi por isto no papel.

A situacao e a seguinte: subscrevendo inteiramente a gaja1, acrescento que esta coisa de ser mulher e tramada. Mais, e biologicamente tramada! Porque uma mulher quando nasce tem ja todos os seus gametas (celulas sexuais) formados. O processo meiotico (processo fundamental para a formacao de celulas sexuais) fica em standby ate a puberdade e a partir dai todos os meses acontece aquele incomodo processo que permite a procriacao ate a (evolutivamente inexplicavel) ocurrencia da menopausa. Ora, durante estes 30-40 anos, as celulazinhas estao “expostas” a montes de danificantes factores ambientais. Em contrapartida, o sexo masculino esta nas nuvens. Os gametas apenas se formam quando sao necessarios, e isso acontece sempre em grande numero. Este processo biologico nao termina (generalizando) a nao ser com a morte do individuo. Logo, facil sera de concluir que o sexo feminino apresenta um falha! Nao querendo “entrar ja de chancas” e escrever um post pragmaticamente misogino, abstenho-me de avancar com mais problematicas biologicas da condicao de ser mulher. Deveriamos, no entanto, perguntar aos senhores catolicos no nosso tao “tradicional” pais se nao achariam melhor por menos senhoras neste mundo? Se e para rematar, que seja um bom remate!

Tentando focar-me novamente no post da gaja1: enquanto biologa semi-entendida em biologia do desenvolvimento, tenho opinioes bem paradoxais quanto a viabilidade da reproducao medicamente assistida e quanto aos seus efeitos na evolucao da especie. Mas, meus caros senhores catolicos, os senhores nao se perguntam se o embriao que cresce em meio nutritivo na placa de petri, que andou para cima e para baixo na pipeta, que comecou o desenvolvimento com uma mistura de estimulos externos, que tenta mimetizar o ambiente natural, vai daqui a uns anos apresentar diferencas negativamente relevantes. Estao e preocupadinhos com aquela meia duzia de celulas que ainda nao decidiram bem o que vao fazer e que - sinto muito decepciona-los - nao passam mesmo disso: meras celulas.

Rapidamente, quando se fala nestas questoes (embrioes/aborto...) e se atira para a fogueria a acha do conceito de familia (que familia e esta?) sai-me logo um sorrisinho no canto da boca ! Mendell, um clerigo, deu uma contribuicao de primeira ordem a biologia (ainda que recentemente se tenha provado que talvez nao seja bem assim, detalhes, para o caso). Era do tempo em que os clerigos eram uteis!

Os catolicos e o aborto

E pronto… O tempo para escrever veio logo assim que me deparei com a seguinte noticia no DN de hoje: ‘Catolicos querem barrar referendo sobre o aborto’…
Ora pois parece que estes nossos devotos cidadaos, pilares da moral catolica na nossa sociedade, pretendem agora um referendo sobre a procriacao medicamente assistida (PMA). Isto tudo pela defesa da ‘dignidade e os direitos do embriao’ e do ‘conceito de familia’… Acontece que como refere Odete Santos e muito bem, isto nao e mais do que uma estrategia para anular qualquer possibilidade de fazer passar tanto o referendo como possiveis alteracoes a lei do aborto.
De PMA o povo nada percebe e portanto, deparado com questoes sobre embrioes e outros que tal, o resultado sera no minimo desastroso, dando como provada a teoria destes meus dilectos cidadaos catolicos: a de que o embriao tem vida e mais, precisa de ser defendido! Assim sendo, nao devera ser ‘assassinado’ e sujeito a ser ‘abortado’…
Realmente, os nossos devotos sao capazes dos golpes mais sujos e baixos. Os seus argumentos sao de facto tao pobres e cientificamente deficientes que estes arvoradores da moral e dos bons costumes necessitam de manipular a ignorancia alheia e infelizmente colectiva. Faz sentido uma vez que muita desta ignorancia instituida no nosso pais advem de seculos e seculos de dominacao sob o jugo de padres, padrinhos e padrecos, que em vez de cerebro carregam a biblia como propedeutica da vida. Agradeco a intencao, mas ainda me considero capaz de defender os meus embrioes, ovulos, e por ai vai. Fica aqui a promessa: em caso de excesso, posso sempre doar-lhes alguns para eles alimentarem e criarem como seus!

Em Cuba...

Enquanto nao consigo arranjar um tempinho para escrever, aqui fica esta magnifica imagem!

Tuesday, February 14, 2006

gajas band?

E se nos comecam a chamar a "gajas band" da blogosfera?! (gaja1, gaja2...)

Um comeco!

Frida

Bem vindas(os) ao 'Assimetrias'

'Assimetrias no Feminino' e um novo espaco de conversa entre mulheres, amigas, que sobretudo devido a distancia fisica, concluiram da necessidade de partilharem as suas experiencias desta forma. E, desconstruindo mitos e preconceitos instituidos, este nao e um blog de 'conversa cor-de-rosa', boatos e diz-que-disses... Nao iremos falar de celebridades, discutir os ultimos modelitos de Milao ou Paris, nem tao pouco perder tempo com receitas culinarias ou detalhes de decoracao. Mas de nada adianta antever e descrever as nossas futuras conversas. O melhor do 'Assimetrias' sera com certeza a capacidade de surpreender, no feminino!